Como precificar roupa para vender online sem perder margem
Vendo bastante e não sobra dinheiro no fim do mês. É o meu preço?
Quase sempre é o preço, sim. Loja virtual paga taxa de cartão, embalagem, frete, devolução e anúncio, e quem forma preço só dobrando o custo da peça esqueceu tudo isso. Preço certo cobre a peça, os custos variáveis do pedido e o custo de trazer a cliente, e ainda aguenta um desconto sem virar prejuízo.
Mês fechado. Recorde de venda. E na segunda-feira tu está olhando o saldo na tela sem entender pra onde foi o dinheiro.
Se isso acontece com frequência, não é problema de volume. É o teu preço.
Faturamento é o número que mais engana dona de loja no Brasil. Ele mede quanto passou pela tua conta, não quanto ficou. E numa loja virtual de moda, a distância entre um e outro é muito maior do que na loja da esquina.
Por que a conta de preço da loja online é outra
A loja física não paga pra trazer cliente. A rua traz, a vitrine traz, a amiga da vizinha traz. O aluguel já é a conta da visita.
Tu paga cada visita. Uma por uma.
Só que quase todo conteúdo de precificação que tu acha no Google foi escrito pra loja física e pra confecção: pega o custo, aplica o markup, pronto. Essa conta está errada pro teu caso, porque ela ignora cinco coisas que só existem no online:
- Taxa de cartão e de plataforma. De 3,5% a 6% do valor da venda, dependendo do gateway e do parcelamento.
- Frete que tu subsidia. Mesmo quando a cliente paga uma parte, o pedaço que sobra é teu.
- Embalagem. Caixa, papel de seda, adesivo, cartão. Numa marca que capricha, dá de R$4 a R$12 por pedido.
- Devolução e troca. Moda feminina online tem troca por tamanho, e cada uma vai e volta no teu bolso.
- Custo de aquisição. O anúncio que trouxe aquela cliente. Esse é o que quase ninguém coloca no preço, e é o que mata.
Precificar sem o custo de anúncio dentro é o erro mais caro do e-commerce de moda. Tu acha que trabalha com 50% de margem, trabalha com 20%, e só descobre no dia em que o caixa não fecha.
Markup e margem não são a mesma coisa
Essa confusão custa dinheiro toda semana, então vamos resolver em dez segundos.
Markup é o multiplicador que tu aplica no custo. Peça que custa R$100, vendida a R$300, tem markup 3.
Margem é o que sobra dentro do preço de venda. Nesse mesmo caso, sobram R$200 dentro de R$300. Margem bruta de 66%.
Markup olha pro custo. Margem olha pro preço. Dobrar o custo, o famoso markup 2, deixa 50% de margem bruta, e é isso que a maioria acha que é lucro.
Não é. É o começo da conta.
A conta completa, com todos os custos do online
Vou usar números redondos pra conta ficar fácil de acompanhar. Não é resultado de cliente nenhum, é exemplo didático.
Vestido que te custa R$100 na facção. Tu vende a R$299.
| Item | Valor |
|---|---|
| Preço de venda | R$299 |
| Custo da peça | R$100 |
| Taxa de cartão e plataforma (5%) | R$15 |
| Embalagem | R$8 |
| Frete que a loja banca | R$20 |
| Reserva de troca e devolução (4%) | R$12 |
| Custo de anúncio por venda | R$60 |
| Sobra por pedido | R$84 |
Olha o que aconteceu aí. O markup era 3, quase 200% em cima do custo. A margem bruta era de 66%. Depois de tudo, sobraram R$84 em R$299. Margem de contribuição real: 28%.
E esses R$84 ainda não são lucro. Eles é que vão pagar pró-labore, contador, ferramenta, funcionária, imposto e a tua conta de luz. Se a loja tem R$12 mil de despesa fixa por mês, precisa de 143 pedidos como esse só pra empatar.
Agora imagina a mesma loja com markup 2, vendendo o mesmo vestido a R$199. Os custos variáveis caem um pouco, mas o custo de anúncio continua R$60, porque trazer a cliente custa o que custa. Sobram cerca de R$12 por pedido.
Doze reais. Pra comprar, fotografar, cadastrar, anunciar, atender, embalar e postar.
É assim que loja fatura R$80 mil e a dona não tira R$5 mil.
O custo de anúncio é parte do produto, não despesa de marketing
Essa é a virada de chave.
Enquanto tu trata o anúncio como uma despesa do mês, ele fica fora do preço e some na conta. Quando tu trata como custo do produto, igual tecido e botão, o preço nasce certo.
A conta é simples: pega o que tu investiu em anúncio no mês e divide pelo número de pedidos que o anúncio trouxe. Deu R$60 por venda? Então R$60 entram em cada preço.
E tem um jeito rápido de conferir se a conta fecha: o teu ROAS de empate, que é 1 dividido pela tua margem em decimal. Com 28% de contribuição, tu empata em ROAS 3,57. Tudo abaixo disso é a loja pagando pra vender. Esse raciocínio inteiro está no artigo sobre o que fazer quando o ROAS está baixo, e ele só funciona se a tua margem estiver calculada do jeito certo.
Preço e anúncio são a mesma conversa. Quem separa os dois vive apagando incêndio.
O preço que aguenta um desconto
Aqui está o motivo de tudo isso.
Volta na tabela. Sobra de R$84 por pedido no vestido de R$299. Tu solta 20% de desconto numa terça-feira parada.
O preço cai pra R$239. A taxa e a reserva de troca caem um pouquinho junto, porque acompanham o valor. Mas o custo da peça, a embalagem, o frete e o anúncio continuam iguais. A sobra desaba pra perto de R$30 por pedido.
Tu cortou 20% do preço e cortou quase dois terços do que sobrava.
Pra ganhar o mesmo dinheiro no mês, tu precisa vender quase o triplo de peças. Com o mesmo estoque, a mesma facção e as mesmas mãos embalando.
O desconto é o imposto que tu paga por não ter gerado valor suficiente pro teu cliente. E o preço formado errado é o que te obriga a pagar esse imposto sem ter escolha. Se tu quer parar com isso de verdade, o caminho está em como parar de depender de desconto.
O que NÃO resolve
Três saídas que parecem lógicas e pioram a situação.
Copiar o preço da concorrente. Tu não sabe o custo dela, não sabe a facção dela, não sabe se ela compra dez vezes mais que tu e não sabe se ela está lucrando. Copiar preço de quem está quebrando é herdar o problema de graça.
Subir o preço sem mexer em mais nada. Preço sobe quando o valor sobe junto: foto melhor, tabela de medidas clara, bastidor, o teu rosto aparecendo. Peça igual com preço maior e página igual só derruba a conversão. É por isso que a dona da loja aparecendo mexe no preço que tu consegue praticar.
Vender no volume pra compensar a margem baixa. Volume com margem apertada é uma arapuca: mais pedido, mais trabalho, mais frete, mais troca, mesmo caixa. Se o preço não fecha na unidade, ele não fecha em mil unidades.
Uma rotina de revisão que cabe na tua semana
Uma vez por mês, meia hora:
- Lista as dez peças que mais vendem e as cinco que mais recebem desconto.
- Atualiza o custo real de cada uma, porque a facção mudou e tu nem viu.
- Divide o investimento em anúncio do mês pelo número de pedidos vindos dele.
- Roda a tabela lá de cima peça por peça e olha a sobra em reais.
- Qualquer peça com contribuição abaixo de 25% entra na fila: ou sobe o preço, ou sobe o valor percebido, ou sai do catálogo.
É o olho do dono que engorda o gado. Ninguém vai fazer essa conta por ti.
O resumo
- Faturamento não é lucro, e na loja virtual a distância entre os dois é grande.
- Markup é multiplicador em cima do custo. Margem é o que sobra dentro do preço. Não são a mesma coisa.
- O preço do online precisa cobrir peça, taxa de cartão, embalagem, frete, devolução e custo de anúncio.
- Custo de anúncio é custo de produto, não despesa de marketing. Fora do preço, ele vira o rombo do mês.
- Um desconto de 20% costuma comer bem mais da metade do que sobra por pedido.
- Confere se a conta fecha pelo ROAS de empate: 1 dividido pela tua margem de contribuição.
Se a tua loja já fatura R$50 mil por mês, vende bem e mesmo assim não sobra dinheiro no fim do mês, aplica aqui. A gente olha teu preço, tua margem e teu custo de aquisição juntos, e te diz com número qual peça está te sustentando e qual está te comendo.
Perguntas frequentes
- Qual markup usar para roupa em loja virtual?
- Dobrar o custo, que é o markup 2, quase nunca segura uma loja online. Ele deixa 50% de margem bruta, e taxa de cartão, embalagem, frete e anúncio comem quase tudo. Loja virtual de moda feminina costuma precisar de markup entre 2,8 e 3,5 para sobrar alguma coisa depois de pagar a aquisição da cliente. O teu número sai da tua conta, não do mercado.
- Preciso mesmo colocar o custo do anúncio dentro do preço?
- Precisa. Loja física não paga para trazer gente, porque a rua traz. Loja virtual paga cada visita. Se o anúncio fica fora da conta, tu acha que tem 50% de margem e na verdade tem 20%. É esse buraco que faz a loja faturar recorde e fechar o mês sem caixa.
- Markup e margem são a mesma coisa?
- Não. Markup é o multiplicador em cima do custo: peça de R$100 vendida a R$300 tem markup 3. Margem é o que sobra dentro do preço, nesse caso R$200 em R$300, ou 66%. Quem confunde os dois acha que tem o dobro de folga que tem de verdade.
- Como saber se posso dar um desconto sem tomar prejuízo?
- Calcula tua margem de contribuição por pedido, em reais, depois de peça, taxa, frete, embalagem e anúncio. O desconto sai inteiro de lá. Se sobram R$60 por pedido e o desconto é de R$50, tu praticamente trabalhou de graça. Desconto que passa de um terço da contribuição é sinal de alerta.
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